Pular a navegação
sábado, 29 de agosto de 2026Medicina e saúde das mãos
Médico das Mãos
Doenças e Síndromes

Uso social de narguilé e vape pode causar dano pulmonar grave

Caso de jovem de 26 anos com histórico de complicações respiratórias reacende alerta sobre riscos do consumo mesmo esporádico dessas substâncias

Por · · 4 min de leitura
Uso social de narguilé e vape pode causar dano pulmonar grave

Uma empreendedora de 26 anos relatou à Folha de S.Paulo ter enfrentado uma sequência de complicações respiratórias graves, incluindo risco de perda parcial do pulmão, após anos de uso social de narguilé e cigarro eletrônico iniciado ainda na adolescência. O caso foi divulgado no Dia Nacional de Combate ao Fumo, comemorado neste sábado (29).

Segundo o relato publicado pelo jornal, os sintomas começaram em 2023, com tosse seca recorrente, febre e dor nas costas. O quadro evoluiu para uma internação de 45 dias, durante a qual médicos chegaram a cogitar a retirada de parte do pulmão esquerdo diante de lesões descritas como cavitações, áreas do tecido pulmonar preenchidas por ar ou líquido.

Posteriormente, exames identificaram tuberculose e, em um segundo momento, uma infecção por Mycobacterium avium, uma micobactéria distinta da que causa a tuberculose. De acordo com a reportagem, especialistas consultados não conseguiram determinar com precisão a origem do contato com esses microrganismos, mas apontaram o compartilhamento do narguilé como fator que pode facilitar a transmissão de agentes infecciosos.

Quem está mais exposto a esse tipo de risco

Pneumologistas ouvidos pela Folha de S.Paulo destacam que o uso apenas social, restrito a fins de semana ou encontros com amigos, também representa risco à saúde respiratória. Cada episódio de exposição à fumaça coloca vias aéreas e alvéolos em contato com substâncias irritantes e tóxicas, o que pode gerar tosse, chiado e falta de ar mesmo no curto prazo.

Um equívoco comum, segundo os especialistas citados na reportagem, é acreditar que a água do narguilé funciona como filtro das substâncias nocivas. Na prática, ela pode reduzir a temperatura da fumaça e suavizar parte da irritação nas vias aéreas, mas não elimina os componentes tóxicos liberados pela combustão do carvão, como monóxido de carbono e material particulado.

Quanto ao cigarro eletrônico, o dispositivo aquece um líquido e gera um aerossol que pode conter nicotina, partículas ultrafinas, metais e compostos formados durante o aquecimento, como formaldeído e acroleína. Entre as complicações já descritas na literatura médica está a Evali, lesão pulmonar associada ao uso desses dispositivos, que pode evoluir para insuficiência respiratória em casos graves.

O que fazer na prática diante desses sinais

Especialistas citados pela reportagem reforçam alguns pontos de atenção para quem usa ou já usou narguilé e cigarro eletrônico:

  • Tosse persistente, febre recorrente ou dor torácica que não melhoram merecem avaliação médica, especialmente em quem tem histórico de uso desses dispositivos.
  • O compartilhamento do bocal do narguilé pode facilitar a transmissão de vírus respiratórios, herpes e infecções bacterianas da cavidade oral, além de casos já registrados de tuberculose.
  • Resíduos acumulados em partes internas do narguilé sem higienização adequada também podem favorecer a proliferação de microrganismos.
  • Buscar apoio para interromper o uso, mesmo quando ele é considerado esporádico ou apenas social, é indicado como medida preventiva.

A cardiologista Jaqueline Scholz, do InCor-HCFMUSP, citada pela reportagem, observa que o perfil de pacientes em busca de tratamento para cessação do uso de nicotina mudou nos últimos anos, com presença maior de pessoas mais jovens. Ela também chama atenção para a diferença no padrão de consumo: enquanto um maço de cigarro convencional equivale a cerca de 250 tragadas, um usuário frequente de cigarro eletrônico pode chegar a cerca de mil tragadas por dia.

O que ainda precisa de acompanhamento

A reportagem da Folha de S.Paulo não estabelece uma relação direta e comprovada entre o uso do narguilé e do cigarro eletrônico e as infecções específicas diagnosticadas na jovem entrevistada. Os próprios especialistas ouvidos pelo jornal ressaltam que não é possível determinar com exatidão quando ou como o contato com os microrganismos ocorreu, embora apontem que o tabagismo em geral está associado a maior vulnerabilidade a infecções respiratórias.

Para quem já usa ou usou esses produtos, o sinal de alerta não é o pânico, mas a atenção a sintomas respiratórios persistentes e a busca por avaliação médica especializada. Quadros como tosse prolongada, perda de peso não intencional ou falta de ar progressiva não devem ser tratados apenas com medicação por conta própria, já que podem indicar processos que exigem investigação mais aprofundada. A decisão de parar de fumar, seja narguilé, cigarro convencional ou eletrônico, segue sendo apontada pelos profissionais consultados como a medida mais eficaz para reduzir riscos futuros à saúde pulmonar.

Fontes consultadas

Mandar para: WhatsApp Facebook X