Adiar tratamento dentário pode custar caro à saúde do corpo

Mais de um em cada três idosos brasileiros já perdeu todos os dentes. O número vem do SB Brasil 2023, a pesquisa nacional de saúde bucal do Ministério da Saúde, e convive com outro dado do mesmo levantamento: quase um em cada cinco adultos que procurou atendimento odontológico ficou sem ele. São duas estatísticas que, lidas juntas, desenham um país onde o adiamento virou rotina e a conta chega depois, em forma de dor, prótese e, em parte dos casos, problemas que extrapolam a boca.
O país não sofre de falta de profissionais. O painel de estatísticas do Conselho Federal de Odontologia, atualizado em 3 de outubro de 2026, registra 474.166 cirurgiões-dentistas em atividade. A distância entre esse contingente e a realidade da população está em outro lugar: distribuição geográfica, renda e, principalmente, no hábito de só procurar atendimento quando a dor fica insuportável.
O que acontece no corpo quando a boca fica doente
A doença periodontal, inflamação crônica que compromete gengiva e osso de sustentação dos dentes, é a ponte mais estudada entre boca e resto do organismo. A Organização Mundial da Saúde classifica as doenças bucais entre as condições crônicas não transmissíveis mais prevalentes do planeta e aponta fatores de risco compartilhados com diabetes e doenças cardiovasculares: açúcar, tabaco, álcool.
Estudos revisados pela Federação Internacional de Diabetes e pela Federação Europeia de Periodontia indicam relação de mão dupla entre diabetes e periodontite. Quem tem glicemia descontrolada responde pior ao tratamento das gengivas. E a inflamação gengival persistente pode dificultar o controle glicêmico. Nenhum dos dois quadros cura o outro, mas tratar um ajuda o outro.
Infecções dentárias não tratadas também podem evoluir para abscessos, celulites faciais e, em situações menos frequentes, para quadros graves que exigem internação. O Ministério da Saúde orienta procura imediata a serviço de urgência diante de dor dentária acompanhada de febre, inchaço no rosto ou dificuldade para engolir. Não é exagero de folheto. É a diferença entre um canal e uma cirurgia hospitalar.
Quem vai ao dentista no Brasil, e quem não vai
O Censo da Odontologia no Brasil, realizado pelo CFO em parceria com a ABIMO e executado pela consultoria Key-Stone entre dezembro de 2023 e dezembro de 2024, mostra que 68% da população foi ao dentista no último ano. O número parece confortável até ser aberto por faixa de renda.
- 80% de quem ganha mais de dez salários mínimos vai ao dentista com regularidade;
- 59% de quem ganha até um salário mínimo faz o mesmo;
- entre os que buscaram atendimento odontológico, apenas 23% o fizeram pelo SUS, segundo o mesmo censo CFO/ABIMO.
Esse último número merece leitura cuidadosa. Ele não significa que o SUS atenda pouco, e sim que o setor privado responde pela maior parte das consultas declaradas. A verdade é que boa parte da população de menor renda usa a rede pública para urgência e extração, e não para acompanhamento preventivo, padrão que ajuda a explicar a perda dentária precoce medida pelo SB Brasil 2023.
Vale um limite metodológico: o SB Brasil 2023 estava previsto para 2020, foi adiado pela pandemia e só foi concluído no primeiro semestre de 2024. O intervalo longo entre edições dificulta comparações anuais e exige prudência ao tratar tendências de curto prazo.
Onde estão os dentistas: um mapa desigual
Comparamos a distribuição estadual no painel do CFO de outubro de 2026 e o desequilíbrio salta. São Paulo concentra 126.395 cirurgiões-dentistas, mais de um quarto de todo o país. Minas Gerais tem 59.123 e o Rio de Janeiro, 41.070. No outro extremo, o Acre registra 1.496 profissionais.
Somados, os quatro estados do Sudeste reúnem mais de 236 mil dentistas, perto de metade do total nacional. Para o morador do interior do Norte, isso significa deslocamento, fila e, muitas vezes, desistência do tratamento no meio do caminho.
Entre as especialidades, a tabela do CFO atualizada em 13 de outubro de 2026 soma 161.753 registros em 25 áreas. A ortodontia lidera, com 34.477 especialistas, seguida pela implantodontia, com 23.991, e pela endodontia, com 21.027. Há aqui uma pista de comportamento: implante e canal são procedimentos de reparo. Quando um país forma quase 24 mil especialistas em repor dente perdido, algo aconteceu antes.
Um caso concreto: como Joinville organizou a média complexidade
Em Santa Catarina, a rede pública de Joinville estrutura a Atenção Secundária à Saúde Bucal com três Centros de Especialidades Odontológicas, o CEO II Bucarein, o CEO II Univille e o CEO Atiradores. Segundo documento oficial da Secretaria de Saúde do município, a cobertura alcança 100% da população de 597.658 habitantes.
No CEO II Bucarein, a prefeitura lista as seguintes especialidades disponíveis:
- endodontia, o tratamento de canal;
- periodontia, voltada ao tratamento das gengivas;
- estomatologia, que investiga doenças da boca;
- Cirurgia Oral Menor, incluindo extração de sisos, dentes inclusos ou impactados e cirurgias de lesões bucais;
- radiologia;
- odontopediatria;
- atendimento especializado para Pacientes com Necessidades Especiais.
A estomatologia merece destaque. É a porta de entrada para o diagnóstico precoce de lesões na boca, incluindo as suspeitas de câncer bucal, doença que o Instituto Nacional de Câncer acompanha entre as mais incidentes em homens no Brasil. Uma ferida que não cicatriza em duas semanas precisa de avaliação, e esse exame é feito em consulta de rotina.
No setor privado da mesma cidade, levantamos registros em plataforma de agendamento e encontramos pulverização grande de autônomos e clínicas, com CROs de Santa Catarina que vão de números baixos, como o 1646, a registros acima de 23.000. O dado é qualitativo e não substitui estatística oficial por município, que não foi localizada publicamente para Joinville. Ainda assim, indica renovação constante do quadro. Quem busca um dentista Joinville pode conferir o número de inscrição no site do Conselho Regional antes de marcar a primeira consulta, procedimento gratuito e que leva menos de um minuto.
Teleodontologia entrou nas regras, mas não substitui a cadeira
Em novembro de 2025, o CFO publicou a Resolução CFO-SEC-278, que estabelece regras para o exercício da odontologia mediada por tecnologias digitais. A norma formaliza a teleodontologia no país e cria balizas para teleconsulta, teleorientação e segunda opinião à distância.
O alcance é real para quem mora longe de centros urbanos, especialmente em estados com poucos profissionais. Mas há limite claro. Cárie se diagnostica com exame clínico e radiográfico. Periodontite se mede com sondagem. Biópsia não se faz por vídeo. A regulamentação ajuda na triagem e no acompanhamento pós-operatório, não elimina a consulta presencial.
Os adiamentos que mais saem caro
Na prática, o atraso costuma seguir um roteiro previsível. Mancha branca no esmalte vira cavidade. Cavidade vira dor. Dor vira canal. Canal adiado vira extração. Extração sem reposição desloca os dentes vizinhos e sobrecarrega a mastigação do outro lado.
O erro mais comum é interpretar o fim da dor como fim do problema. Quando a polpa dentária necrosa, a dor cessa, e a infecção continua avançando em silêncio pelo osso. Esse é um dos motivos pelos quais o CFO contabiliza mais de 21 mil endodontistas no país.
Grupos que precisam de atenção redobrada, segundo orientações do Ministério da Saúde e de sociedades da área:
- pessoas com diabetes, pela relação de duas vias com a doença periodontal;
- gestantes, que podem e devem receber atendimento odontológico durante o pré-natal;
- fumantes, pelo risco aumentado de lesões bucais e perda óssea;
- pacientes em tratamento oncológico de cabeça e pescoço, que precisam de avaliação bucal antes de iniciar a terapia;
- idosos com próteses mal adaptadas, que podem desenvolver lesões crônicas na mucosa.
O que fazer a partir de agora
Marcar consulta de avaliação é o passo que destrava os demais, mesmo sem sintoma. A periodicidade do retorno varia conforme risco individual, histórico de cárie e condição gengival, e quem define isso é o profissional após o exame.
Na rede pública, o caminho começa na Unidade Básica de Saúde do território, que encaminha aos Centros de Especialidades Odontológicas quando o caso exige média complexidade, modelo que Joinville aplica com seus três CEOs. Vale levar a lista de medicamentos em uso e informar doenças crônicas logo na primeira conversa, porque isso altera o planejamento do tratamento.
Ao contrário do que parece, orçamento alto não é sinônimo de tratamento melhor. Conferir a inscrição no Conselho Regional de Odontologia, pedir plano de tratamento por escrito com etapas e materiais, e questionar alternativas antes de aceitar extração são condutas que protegem o paciente. Em caso de dor com febre, inchaço facial ou dificuldade para engolir, a orientação do Ministério da Saúde é procurar urgência no mesmo dia.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento realizado por cirurgião-dentista ou outro profissional de saúde habilitado.